Bússola de latão sobre madeira com um pequeno ímã encostado ao lado, a agulha desviada do norte, mar azul-esverdeado ao fundo sob luz de amanhecer.

O Sacrifício do Ideal e a Transformação do Desejo:

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Um Ensaio sobre a Fantasia Narcísica e a Integração da Realidade

O objetivo deste texto não é precisão didático-teórica (isso deixo para os mestres de cada escola, que fazem isso muito melhor do que eu teria condição de fazer aqui). O que busco é trazer luz para um entendimento mais simples, com exemplos e citações que mostrem que esse conteúdo não foi tirado da cartola, num passe de mágica delirante.

Por isso transito pelas teorias de Freud, Jung e Lacan, assim como pela tradição budista e, sobretudo, pela judaico-cristã, que nos legou um vasto material arquetípico, transmitido por milênios a fio. Há uma frase, muito repetida, atribuída a Jung, que não está registrada em nenhuma de suas obras oficiais: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Apócrifa ou não, ela descreve bem o espírito do que tento fazer.

E o próprio Jung escreveu algo muito parecido, esse sim documentado, em A Prática da Psicoterapia (Obras Completas, volume 16/1, §11): “O melhor que o médico pode fazer nesses casos é dispensar todo seu equipamento de métodos e teorias e confiar, velando unicamente por sua personalidade para que ela tenha firmeza suficiente para servir de ponto de referência ao paciente.”


“Uma pessoa que não deseja não sofre. […] O sofrimento surge do desejo; a única forma de se livrar totalmente do sofrimento é se livrar totalmente do desejo. […] Se a mente de uma pessoa for livre de todo desejo, nenhum deus poderá torná-la miserável. Por outro lado, quando o desejo surge na mente de uma pessoa, nem todos os deuses do universo reunidos são capazes de salvá-la do sofrimento.”

— Yuval Noah Harari, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade

A Falta que Sustenta o Desejo

Sempre vai faltar alguma coisa. É o desejo pelo objeto perdido, um objeto que não existe. Sempre há uma falta e por isso sempre vamos desejar e sofrer, pois sofro pelo que desejo e só desejo o que me falta. Não é possível desejar o que já tenho, a não ser que haja algo patológico nisso. O que me falta, eu desejo: não há desejo sem falta nem falta sem desejo, um é o avesso do outro, uma lei. É a base e o pilar do budismo: a sede de todo sofrimento é o desejo, conforme a citação de Harari.

E isso já estava em Freud, mais de um século antes de Harari: o desejo nasce tentando reencontrar uma satisfação que já vivemos uma vez. Ele descreve isso com o exemplo do bebê faminto, cuja necessidade, satisfeita pela primeira vez, deixa uma marca, uma imagem associada àquela satisfação. Na próxima vez que a necessidade voltar, o psiquismo tenta recriar essa mesma imagem, restabelecer a situação original. Mas, como ele mesmo escreve, a satisfação não sobrevém e a necessidade perdura.

Nós somos desejantes em falta e, como disse Lacan, o desejo do indivíduo é ser o objeto da falta do outro: desejo ser o que falta ao outro.

Se a lógica fosse só essa, a resposta seria simples: não deseje.

O risco de desejar é estabelecer uma fantasia, na qual, muito cedo, você passa a ver o mundo a partir da lente de quem você pensa que é agora e a acreditar que o mundo é de um determinado jeito porque você se vê de um determinado jeito. E, se não chega a esse lugar ideal, produzido por essa fantasia, se frustra, porque achou que “aquilo” era real e não esteve disposto a olhar para as outras oportunidades que tinha.

Sem esse desejo, sem essa interferência, a sua libido (como definida por Jung) vai te direcionando, te levando. Mas o desejo é como isto: você está num barco, alguém coloca um ímã do lado da bússola e ela dá uma viradinha. Você começa a ir para outra direção sem perceber. Quem colocou isso ali ao lado da bússola? Você mesmo.

O Ideal que Nos Fez Civilização

O desejo é a busca pelo ideal. E é importante ter esse ideal, porque tudo o que você tem e desfruta, quem você é hoje, foi ele que te puxou, você querendo ser melhor, lidando com as coisas da sua infância e da sua família. É útil e não é para (nem é possível) eliminá-lo do mundo, pois somos civilização por causa dele. O problema é quando esse ideal fica desmesurado, quando você estica demais a régua: aí você sofre nesse espaço entre você e o seu ideal.

Todavia, esse ideal não é só fonte de sofrimento: todo mundo precisa ter esse ideal de si, esse ideal de futuro, porque foi ele que trouxe a humanidade até o ponto em que estamos. O superego é importante, precisa existir, porque senão, talvez, seríamos bárbaros selvagens: são regrinhas que nos tornaram como somos e sem elas não há como constituir uma civilização.

Antes de nascer, você já é o desejo dos seus pais, não porque eles desejam você, mas porque desejam um portador dos próprios desejos. Por isso os pais querem que você estude em tal escola, faça tal curso, pois querem realizar nos filhos o desejo deles e projetam neles.

Como eu disse antes, todo mundo estabelece um ideal de si: um jeito que se almeja ser. É um processo em boa parte inconsciente, embora às vezes o reconheçamos. Esse ideal nunca vai deixar de existir, é uma dinâmica psíquica, faz parte da estrutura, porque ele também nos move para frente: queremos ser melhores, evoluir, nos desafiar.

Tecnicamente, são dois os ideais: o eu ideal e o ideal do eu.

O “eu ideal” é aquela imagem narcísica de onipotência, o bebê que se sente o centro do universo, perfeito, completo, antes de qualquer falta (o “eu sou o máximo” sem precisar que ninguém valide). Vem de um lugar mais primário, imaginário, quase anterior à linguagem, sendo aquele moleque que brinca livre, sem limite, a criança pura e simples, no “estou aqui curtindo, é demais”.

Já o “ideal do eu” é a vara de medir que vem de fora: é a instância que internaliza o olhar do outro (pai, mãe, cultura) e diz que é assim que você deve ser para ser amado e reconhecido. É simbólico, ligado à lei, à linguagem, ao superego na sua face mais amorosa, não na punitiva. É a menininha brincando com as maquiagens: quando a mãe briga com ela, a menina estabelece esse ideal do eu com um “não posso brincar por isso, por isso e por isso”, que confronta o eu ideal dela.

O eu ideal é a criança se achando o rei do pedaço só por existir; o ideal do eu é o “olha como o papai fica orgulhoso quando você se comporta assim”. Um é o brilho narcísico bruto, o outro é o brilho que passou pelo crivo do outro.

O espaço entre um e outro é onde se sofre, e quanto maior o espaço, maior e mais prolongado o sofrimento.

A Raiva Como Sintoma da Impotência

O problema é que, quanto menos você se reconhece na realidade, mais aumenta o sarrafo. A exposição à realidade revela que você não é o seu ideal e você fica contrariado, como se isso te diminuísse. Você se depara com o “eu” real, mas ele já está prejudicado, maltratado por você mesmo, porque você quer aquele outro, o ideal. A raiva, então, é a impotência de não conseguir o ideal, o objeto que falta; e a frustração é a morte desse ideal: uma parte dele vai morrendo, se desmanchando.

Quando um pai bate no filho, ou age com violência, ele informa que está falido como pai, que foi incapaz. E, antes de bater, ele sente a raiva da própria impotência: “não sei o que fazer, não tenho argumento, não sei o que dizer”. Resta a tirania, uma atitude compensatória, pois, para quem só tem o martelo como ferramenta, todo problema é prego.

Por que ficamos irritados de verdade? A raiva é o sintoma da impotência: não consigo me mexer, não consigo agir. Não é por ser inseguro, é por não ser aquilo que eu gostaria de ter sido. O que vem de fora revela essa “incompetência” em mim.

É assim: aquilo que você pensa que o outro está pensando de você é, na verdade, aquilo que você mesmo pensa a seu respeito. Você olha o outro e o que vê de volta é a sua própria certeza de quem você ainda crê que é. Aquilo de que ele pode não gostar em você é aquilo de que você mesmo não gosta. Se ele realmente não gosta, você diz “eu sou assim mesmo, ah, vida!”, e então as pessoas podem se compadecer e ver o seu sofrimento.

Mas quem é esse “eu” que deseja? Imagine um menino que saiu pelas ruas do seu bairro à procura do pai para assistir com ele a um importante jogo de futebol. Será que a busca pelo pai era mesmo para assistir ao jogo? Não mesmo, era para encontrar o pai antes que ele estivesse onde sempre estava, no bar, alterado, mais impulsivo, mais agressivo na fala, mais arrogante, outra personalidade se apresentando ali. Esse menino foi em busca do verdadeiro pai: não queria que ele se transformasse no outro.

É assim que um ideal se constrói: não de uma vez, mas peça por peça, memória por memória, cada impressão virando um retalho. Se eu ficar com raiva, as pessoas vão me tratar de um certo jeito, então aprendo a não ter raiva. E vou somando isso à minha personalidade, me fechando, montando essa colcha de retalhos, costurando essa fantasia. Você só vive a sua vida hoje porque foi abandonando uma versão mais antiga de si, deixando essa versão para trás. Se fosse ela no comando, esse “você” não estaria aqui.

O self é o centro da personalidade, o que seria o ser puro, a sua essência. Mas o que desejamos não vem daí: vem dessa persona montada, desse mosaico de impressões que você foi juntando ao longo da vida. É por isso que o desejo, tal como o vivemos no dia a dia, nunca alcança o ser puro, pois nasce já maculado por esse mosaico, por essa fantasia que você mesmo costurou.

O Marinheiro Sem Rumo

Resistir ao impacto da realidade não é ficar numa queda eterna.

Pense: você é um marinheiro, bate um desânimo, mas dizem que o importante é seguir adiante. Ocorre que, se você não sabe nem onde está, vai seguir adiante para onde? O que você pode querer, avançando sem perspectiva? Acha mesmo que é uma boa ideia manter o mesmo rumo, numa navegação de baixa visibilidade e ainda com um ímã do lado da bússola?

O ímã (desejo/ideal) pode mudar a direção da agulha de forma sutil ou drástica, dependendo de quão forte ele é e de quão perto está da bússola. Pode ser imperceptível ali na hora, mas você anda, anda, anda, e depois de mil quilômetros, a que distância você está de onde precisava chegar?

É assim que ele age: não é um desvio brusco que você notaria de cara, é um erro mínimo que se acumula silenciosamente ao longo da viagem, até que um dia você olha em volta e não reconhece mais nada.

Traduzindo para a vida real: você decide, ainda criança, que precisa ser de um certo jeito para ser amado. É uma correção pequena, quase nada, um grau só de desvio. Só que você não anda cem metros com essa correção, você anda a vida inteira com ela. Décadas depois, você olha em volta e descobre que virou alguém que mal reconhece, perseguindo um destino que nunca foi seu de verdade, só porque, num momento qualquer lá atrás, alguém colocou um ímã do lado da sua bússola e você nunca mais parou para checar o rumo.

O problema não é ter se desviado: todo mundo se desvia, navegar sem checar a bússola de vez em quando é inevitável. O problema é seguir andando às cegas, confiando numa direção só porque é a que você já vem seguindo há anos.

Desejo Como Remédio, Desejo Como Doença

Podemos complicar ainda mais essa saída (de não desejar) com Jacques Lacan, em seu Seminário 8. Para ele, o desejo não é só uma consequência mecânica da falta, é uma defesa contra algo pior, a angústia de encarar essa falta sem mediação nenhuma. “O desejo é um remédio para a angústia”, ele escreve: desejar dói, com toda a culpa e a frustração que isso carrega, mas é mais fácil sustentar essa dor do que sustentar a angústia crua.

Porém há homens, como Buda e Jesus Cristo, que nos fazem pensar: temos que rever isso. Sempre vai existir o desejo, sempre vai existir o ideal de si, mas, se pensarmos no ideal do ideal, seria “não deseje”.

Se fôssemos ao suprassumo, como resolver o problema do sofrimento de uma vez? Não deseje.

Se você conseguir não desejar, está curado, foi o que Buda descobriu, o Nirvana é isso. A causa de todos os males é o desejo: se você não desejar, nenhum demônio vai te pegar; se você desejar, nenhum Deus vai te salvar.

Cristo aponta na mesma direção, no Evangelho de Mateus: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24). Não se trata de ter riqueza, mas do apego a ela, pois quem se agarra aos bens não consegue se soltar para entrar no reino.

Não existe um fiscal de rico e pobre na portaria do paraíso. Se você deseja (neste caso, ser rico), não entra no reino dos céus, mas não porque alguém vá te barrar na entrada. O reino dos céus é a completude com o divino, a integração com Deus; se você tem desejo, é porque algo te falta, e em Deus nada falta.

Você não precisa morrer para entrar no reino dos céus: isso pode acontecer agora, neste exato instante em que você lê estas palavras, se você for capaz de não desejar. Se, agora, nada te falta, você já pode se tornar um com Deus.

Há um místico persa do islã, Jalaluddin Rumi, que viveu no século XIII e tem uma frase que li uma vez, há uns trinta anos, e que virou uma espécie de mantra para mim:

“imagine que sua consciência são crianças que cortam um pedaço de cana para brincar de cavalinho. Negue seus desejos e um cavalo de verdade aparecerá sob você.”

A criança brinca com o cabo de vassoura e, enquanto desejar que aquilo seja um cavalo, aquilo vai continuar sendo um cavalinho de brincadeira. Mas, quando ela nega o desejo, para ela é o cavalo mesmo: não há mais pretensão e por isso não há mais sofrimento.

A Função Transcendente

O desafio, porém, é que tentar alcançar esse estado apenas por um esforço de vontade costuma ser uma armadilha.

Carl Jung, de um jeito diferente, chega numa conclusão parecida, mas com um aviso: não dá para simplesmente copiar uma técnica de eliminação do desejo sem processar antes o que está no inconsciente; é como vestir uma roupa emprestada, apertada, que não foi feita para o seu corpo. O resultado não é a serenidade prometida, é uma pose engessada, forçada, uma caricatura de quem largou o desejo, enquanto por dentro o desejo continua inteiro, só disfarçado. E Jung descreve, com outro nome, o próprio movimento que estamos fazendo aqui: quando duas posições contrárias são mantidas em tensão, sem que uma ceda à outra, nasce delas um terceiro elemento, que ele chama de função transcendente.

O nome confunde porque soa místico, mas “transcendente” aqui não tem sentido religioso. Significa só que o resultado transcende (ultrapassa) as duas posições de origem: não é nenhuma das duas, nem uma mistura das duas, é uma terceira coisa nova. Para Jung, a consciência (o ego) tem uma atitude, uma direção; o inconsciente frequentemente guarda o material oposto, compensatório (o que a consciência recalcou, ignorou ou não quis ver, e que aparece em sonhos, sintomas, fantasias, lapsos). A saída mais comum das pessoas é ignorar um dos dois lados, seja o ego atropelando o inconsciente (recalque), seja o inconsciente atropelando o ego (surto, compulsão, neurose tomando conta).

Jung propõe uma terceira via, que é levar os dois lados a sério ao mesmo tempo, como se fossem duas pessoas com direitos iguais discutindo (ele usa a expressão latina audiatur et altera pars, “que se ouça também a outra parte”). Segurar essa tensão sem deixar nenhum dos dois vencer de imediato é o que gera fricção e energia; dessa fricção nasce algo vivo, um símbolo, uma atitude nova, que não existia em nenhum dos dois lados antes. A função transcendente é justamente essa capacidade psíquica de gerar a terceira coisa a partir da tensão entre opostos.

Na prática clínica, ela é a base teórica da imaginação ativa, a técnica de Jung de dialogar conscientemente com imagens e figuras do inconsciente (num sonho, numa fantasia) em vez de só interpretá-las de fora ou ser arrastado por elas.

Eu entendo e defendo que quem não deseja não sofre, e essa lógica de Buda, repetida por Cristo e por Rumi, faz sentido. Entretanto, como vimos com Lacan, o desejo também é isso: um remédio para a angústia. Talvez a saída, então, não seja extinguir o desejo, mas o contrário, sustentá-lo conscientemente, sabendo que ele está ali cumprindo esse trabalho de te proteger da angústia.

O Sacrifício Consciente

Jung traz uma posição nova: sustentar conscientemente começa assim, com um sacrifício consciente, que só existe porque a tensão entre o ego e o inconsciente foi mantida até o fim. Não é o sacrifício do desejo em si, mas dos objetos específicos em que ele fica preso.

Aquilo que eu desejo é caro para mim e deixar de desejá-lo é um sacrifício. Estou abrindo mão de uma coisa que penso ser muito importante (é por isso que eu a desejo) e, se eu sofro por não tê-la, é porque ela é mais importante ainda. Então, eu declaro uma renúncia àquele ideal desejado (esse é o sacrifício), mas ele precisa ser consciente num primeiro momento. Com o tempo, você passa a ser menos desejante: não é que nunca mais vá desejar, mas passa a desejar menos, por assim dizer.

Não espere nada, nem bom, nem ruim: é difícil, mas tente não esperar nada, porque senão você vai se frustrar. Sofremos da falta e, consequentemente, do desejo, isso é básico. Se você desistir do desejo de não ficar sozinho, por exemplo, se aceitar a solidão, tudo isso acaba num instante, e a solidão vai embora. Puf, acabou.

O sacrifício é abrir mão daquilo que você mais deseja. Abra mão disso e os deuses te recompensam: sempre foi assim, em qualquer lugar e tempo. Como vou oferecer uma coisa ruim a um ser supremo, puro e perfeito? Dar aos deuses aquilo que não tem tanto valor ou de que não preciso tanto não é sacrifício, é descarte. Eu dou o melhor, que é o que eu gostaria para mim. Sacrifique o objeto do seu desejo e, quanto maior e mais valioso, melhor.

Se você não sacrificar aquilo que mais deseja guardar, o novo que você quer nunca vai entrar na sua vida, porque você fica ocupado com aquela imagem antiga: precisa desocupar.

O sacrifício é romper com a sua ideia de segurança, a corda na qual você está agarrado e da qual precisa se soltar. Se eu ficar pobre, está bom, não vou brigar com isso, não vou me revoltar. Quando você faz isso, não é mais pobre, mesmo que perca tudo. Na verdade, você não perdeu nada, porque não deseja mais o status que tem agora. Então você pode ser qualquer coisa e não sofre. O sujeito de sucesso é rico porque, onde quer que caia, está bem: perde de novo e vai de novo. Não tem medo de perder, porque a derrota é familiar para ele: não se agarra ao desejo de nunca errar. Se você tem medo de ser pobre, lamento informar: você já é pobre.

Então, o que é mais importante, o que você mais deseja na sua vida? Aquilo que você mais quer e que agora admite que não vai ter: está na hora de sacrificar isso em troca de alguma coisa.

Jung desenvolve essa conclusão norteadora no capítulo VIII inteiro de Símbolos da Transformação (1912), intitulado “O Sacrifício”, e essa é justamente a ideia que causou sua ruptura definitiva com Freud, em 1913: “com estes sacrifícios, cujas vítimas são objetos apreciados, renuncia-se a este desejo instintivo, a libido, para readquiri-la de forma renovada” (§671); “este sacrifício só acontece numa total devoção à vida, quando toda a libido retida em laços familiares precisa sair do círculo estreito e ser levada para o grande mundo” (§644, no contexto de sacrificar o apego infantil aos pais para a libido poder progredir).

Para ele, o sacrifício não é perda pura: é o que libera a libido (redefinida por Jung) presa num objeto antigo, seja a segurança, seja uma imagem de si mesmo, para que essa energia possa se mover para um lugar novo. No sacrifício, o consciente renuncia à posse e ao poder em favor do inconsciente, e é isso que libera energia para uma vida nova.

Pode haver um certo saudosismo do que ficou para trás, o que é compreensível. Mas é bom quando você percebe: “essa é a minha vontade, eu estou com vontade”. E, quando essa vontade está direcionada para alguma coisa, melhor ainda, é como se a agulha da bússola parasse de rodar e passasse a apontar para o norte verdadeiro. Porque, no fim, eu também entendo isto: somos seres desejantes e sempre vamos ser. Constituídos como somos, não há como não desejar. Talvez, se um dia o Homo sapiens evoluir para outra espécie de ser, esse outro ser consiga. Mas nós, do jeito que somos hoje, não.

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